Terra de Santo

2 fev

Publicado no blog: http://www.imparcialidadeoufrieza.blogspot.com/2012/02/terra-de-santo.html

 

Podem até me acusar de fazer apologia ao tráfico de drogas. Isso é normal hoje no Brasil, ainda mais em relação aquelas pessoas que têm um olhar diferente e não-elitista sobre a questão. Mas vou escrever e publicar este artigo, ainda mais que o jornalista e advogado Gustavo Mameluque abriu espaço para a discussão de assunto tão polêmico.

Mameluque escreveu no “Jornal de Notícias”, edição de domingo/segunda-feira, dias 29/30 de janeiro de 2012, sobre a Comunidade de Pinheirinho, em São José dos Campos, São Paulo. O artigo recebeu o título de “O drama de Pinheirinho tão perto de nós”, publicado na página 02 do JN.

O jornalista e advogado enfatiza o drama da falta de moradia no Brasil com os exemplos da realidade de Pinheirinho e da Comunidade Cidade Cristo Rei da Paróquia São João Batista de Montes Claros. Os cerca de cinco mil moradores de Pinheirinho foram brutalmente desalojados pelos Governos de São Paulo (Estado e Município) e, por que não, pelo Governo Federal, por causa do especulador chamado
Naji Nahas.

Pinheirinho estava ocupado desde 2004. Mais de cinco anos. Ou seja, já dá ganho de causa por usucapião. Já “a história da Paróquia São João Batista de Montes Claros começa em 1940 quando a Família Vieira arremata em leilão público terreno de 10 mil metros quadrados, correspondente à região onde hoje está localizada a igreja de São João Batista. Um dos proprietários era Augusto Vieira, ativista na Sociedade São Vicente de Paulo [SSVP]. Ele fundou em 31 de outubro de 1943 a Conferência Vicentina Cristo Rei na Comunidade São João Batista”, conforme trecho da página 49 da revista “Ser Tão Igreja”, comemorativa dos 100 anos da Arquidiocese de Montes Claros.

Esta Comunidade Cidade Cristo Rei, certamente em virtude do processo de urbanização desenfreado de Montes Claros a partir das décadas de 1970 e 1980, começou a ser ocupada. Quer dizer, a década de 1980 foi a década das ocupações na cidade. Corrijam-me, por favor, se estiver errado. Prefeitos até incentivavam essas ocupações com o argumento, mais do que legítimo e legal, de acesso à moradia.

Com base em “A Ideologia Alemã – Primeiro Capítulo”, de Karl Marx e Friedrich Engels, “relativamente aos Alemães, que se julgam desprovidos de quaisquer pressupostos, devemos lembrar a existência de um primeiro pressuposto de toda a existência humana e, portanto, de toda a história, a saber, que os homens devem estar em condições de poder viver a fim de ‘fazer história’. Mas, para viver, é necessário, antes de mais nada, beber, comer, ter um teto onde se abrigar, vestir-se, etc… O primeiro fato histórico é pois a produção dos meios que permitam satisfazer as necessidades, a produção da própria vida material; trata-se de um fato histórico, de uma condição fundamental de toda a história, que é necessário, quando hoje, como há milhares de anos, executar dia a dia, hora a hora, a fim de manter os homens vivos”.

É preciso estudar mais profundamente sobre o assunto das ocupações de terrenos no Brasil, antes de tomar medidas precipitadas, como a de Pinheirinho. O desalojamento de Pinheirinho foi muito bem articulado pelo Poder Público Municipal e Estadual Paulista, e por que não, o Federal, que se utilizou muito bem da nossa mídia, que está sempre em uma situação de encruzilhada.

Começou com o jornal “Folha de São Paulo”, e acredito que em outras mídias também, publicando em sua primeira página, com destaque (uma arte muito bonita e inteligentemente produzida) sobre o armamento da Comunidade de Pinheirinho: coroa de bicicleta, faca, cano de PVC como caneleira, tacape com pregos, escudo de barril de plástico, pit bull, antena parabólica.

O Governo de São Paulo (Estadual e Municipal), e por que não o Federal, tratou primeiro de demonizar a Comunidade de Pinheirinho (leia a edição do jornal “Folha de São Paulo” de sábado, 14 de janeiro de 2012).

Aproveitando das migalhas “revolucionárias” deixadas por uma tal de “primavera árabe”, o Governo de São Paulo inovou no conceito de guerra e, desta vez, contra civis, todos pobres trabalhadores (já dizia João Guimarães Rosa ou “Grande Sertão: Veredas”, “pobre tem que ter um triste amor à honestidade”). O Estado alegou também que o tráfico de drogas dominava a Comunidade de Pinheirinho. Pode ser. Mas quando é para atacar o tráfico de drogas, o Estado sempre se arma contra comunidades de pobres trabalhadores.

Estão aí os exemplos recentes de “pacificação” das comunidades cariocas às vésperas do Brasil sediar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada (essas ações foram até reforçadas pelo péssimo e milionário filme “Tropa de Elite”). Assim como aquele crime na escola de Realengo, no Rio de Janeiro (RJ), é um “soco no estômago do Estado”, o tráfico de drogas, sobretudo a sua distribuição, é uma porrada no rosto do Estado.

E no caso da Comunidade Cidade Cristo Rei, em Montes Claros, ali é mais Terra de Santo (da Igreja), como em Santo Rei de Araruba, comunidade principal do Brejo dos Crioulos de São João da Ponte, Verdelândia e Varzelândia. É preciso discernimento nessas questões. Karl Marx é quem estava certo. “O Estado merece receber do povo uma educação muito severa”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: